sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ética e Cidadania

Vivemos hoje num mundo de incertezas, em plena crise, não só económica, não só de valores, mas também de identidade. Torna-se cada vez mais difícil diferenciarmo-nos do colega na secretária ao lado (ou pior, do número anterior ao nosso na fila do Centro de Emprego), diferenciarmos o Pais dos últimos valores dos juros da dívida pública, diferenciarmos o mundo de uma avalanche de acontecimentos que deixam muitas dúvidas sobre o nosso lugar daqui por dez dias, dez meses ou dez anos...


Este é um tempo de crise, um tempo de dúvida, um tempo de perigo. De acordo! Mas não podemos baixar os braços e considerar que este seja um tempo de desesperança, de derrotismo ou de angústia! Cada crise é sempre ocasião de uma nova oportunidade, uma ocasião para nos reerguermos, uma ocasião para tomar um novo rumo.


Como o conseguiremos? Com trabalho, com esforço e muito empenho, sem dúvida! Mas a resposta está, creio, para além disso: há que fazer toda uma refundação, todo um investimento em valores que, ao longo dos últimos anos, acabaram por perder o seu espaço.


Falo aqui de um exercício de Ética e de Cidadania.


A Ética, como “cola” de todo o nosso tecido social, não como um manual de boas práticas (muito menos, um conjunto de regras rígidas), mas como o conjunto de imperativos que condicionam a nossa acção. Muita gente (ainda) tem a ideia, falsa e pós-moderna, de que a nossa liberdade é ilimitada e que quaisquer condicionalismos a essa mesma liberdade a põem em causa. No entanto, quer a Filosofia quer a nossa experiência da realidade nos mostram que a liberdade absoluta, não condicionada, é um mito. Há, pois, que redefinir o nosso conceito colectivo de liberdade e nele admitir a possibilidade e a necessidade de ela ser condicionada. Ora, é precisamente da arte de conciliar a nossa liberdade com os seus condicionalismos que trata a ética. Escrevia S. Paulo (1 Cor 6,12) que “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Assim, pois, somos nós chamados a entender que nem tudo o que nos é permitido nos convém.


Por outro lado, a Cidadania, que podemos entender como uma extensão da própria Ética, numa vertente direccionada para a integração do ser humano na sua sociedade. Apelo aqui a uma mobilização de cada um no sentido de se auto-responsabilizar na construção de uma sociedade melhor. É um dever inalienável e o único caminho de futuro para o cumprimento de uma ambição mais do que legítima, a de deixarmos um mundo melhor para os nossos descendentes. A Cidadania traduz-se, claro, no modo como nos desacomodamos, intervimos e participamos na construção de uma sociedade ao mesmo mais tempo mais justa e mais livre. É certo que a democracia cntemporânea retirou várias armas a quem quer desinstalar-se (a seu tempo, cá voltaremos), mas, ainda assim, é uma irresponsabilidade de cada um demitir-se do processo de decisão e de crescimento de uma sociedade.


E na prática, perguntar-me-eis? Bem, na prática, tudo conta! Desde o modo como me levanto de manhã até à maneira como decido concorrer à Presidência da República. E tudo o resto pelo caminho: ser responsável nos meus estudos; ser motor de alegria no meu meio profissional, na minha família e com os meus amigos; escrever num blog; votar; assinar uma petição por uma causa justa; participar numa manifestação; promover o outro que, no meu próprio meio, é desvalorizado; dar uma parte do que tenho a quem mais precisa; criar um grupo de voluntariado; etc., etc., etc. …


Claro que podemos optar pelo caminho contrário, por nos demitirmos da nossa responsabilidade, por nos deixarmos adormecer neste torpor colectivo que parecemos atravessar. Mas pergunto: estaremos a fazer o que nos convém? Estaremos a viver à altura do nosso potencial, à altura do nosso dever?


Deparei-me hoje, por acaso, com o seguinte excerto de Emil Cioran, retirado de Do inconveniente de ter nascido: “Deveríamos repetir a nós próprios todos os dias: Sou um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. Essa banalidade justifica qualquer conclusão, qualquer comportamento ou acto: deboche, castidade, suicídio, trabalho, crime, preguiça ou rebelião. […] E daí se conclui que todos nós temos razão em fazer o que fazemos.” É precisamente este tipo de lógica que nego – defendo uma responsabilidade pessoal por parte de cada um para consigo próprio e para com todo o mundo.


O potencial de mudança reside dentro de cada um, a partir do modo como nos relacionamos com o mundo em que vivemos. Possa cada um de nós ser motor de uma mudança de que cada vez estamos mais necessitados!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Universidade de Coimbra - Que futuro?

Caros amigos,

Antes de mais, gostaria de partilhar convosco a encruzilhada em que sinto que me meti, logo que optei por escolher o “Futuro da Universidade de Coimbra” como tema desta minha primeira intervenção.

De facto, o tema é demasiado amplo para que consiga aqui abordar as inúmeras possibilidades que encerra. Apesar disso, e visto que “nos” encontramos perto de eleger aquele será o próximo Reitor da UC, é agenda do dia reflectir sobre quais deverão ser as principais orientações estratégicas da UC para os próximos quatro/cinco anos.

Estudo há cinco anos na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que foi a minha primeira escolha no acesso ao Ensino Superior. Houve uma altura do meu percurso académico em que, garanto-vos, tinha pouquíssima estima pela Universidade (ou, sejamos justos, pela faculdade) e cheguei a jurar que nunca faria aqui mestrado. Inclusivamente, cheguei a recomendar a estudantes do ensino secundário que não escolhessem Coimbra. A minha frustração não se devia a más notas, devia-se apenas ao facto de sentir que havia à minha volta instituições do Ensino Superior mais valorizadas pelo mercado de trabalho e em que o ensino – pelo menos a acreditar nas palavras dos meus amigos que as frequentavam – era verdadeiramente mais atractivo. Em cinco anos, vi a Universidade de Coimbra ser ultrapassada em várias áreas pela Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Aveiro, pela Universidade Católica, para citar apenas alguns exemplos. E, depois do Processo de Bolonha, assisti a uma fuga enorme de recém-licenciados que escolhem outras universidades – portuguesas ou europeias – para fazer mestrado. Este sentimento não passava disso mesmo: um sentimento. Mas quando sentimentos deste tipo são generalizados e se tornam conversa de café, é porque algo está mal.

Desabafo à parte, não poderia pensar hoje de forma mais diferente. Nos últimos três anos tive a oportunidade de trabalhar activamente numa organização -a AIESEC - que, através dos estudantes, professores e empresas com quem me permitiu contactar, me fez perceber que a Universidade de Coimbra tem, sim (!), a capacidade de formar estudantes únicos em todas as áreas. O estudante de Coimbra é um estudante resiliente, crítico e inovador que estuda num ambiente académica privilegiado e que tem que ser capitalizado.

Uma Universidade como a de Coimbra, não pode querer para si um futuro que não seja ser a referência nacional no Ensino Superior e uma referência no Ensino Superior Europeu. Para tal, numa análise simples, poderão contribuir dois factores críticos de sucesso: (1) Investigação e (2) Taxa de Colocação dos estudantes no mercado de trabalho da sua área.

Em relação ao factor Investigação, julgo que a sua essencialidade é óbvia. Primeiro, porque só boa investigação atrairá os melhores estudantes aos cursos pós-graduados da Universidade; segundo, porque uma investigação que gere receita é remédio (quase) santo neste contexto de cortes no Ensino Superior; e terceiro, porque a projecção mediática da boa investigação trará auto-estima aos alunos e docentes (veja-se, a este propósito, as boas práticas da FCTUC), bem como renome à Universidade.

Neste campo, e apesar da aposta dever continuar, parece-me que a Universidade está bem desperta. O problema é que insiste em continuar a dormir no que toca ao factor “taxa de colocação” visto que, salvaguardadas as excepções, poucos cursos se preocupam verdadeiramente com a colocação dos alunos que formam.

As estatísticas dizem que 99% dos estudantes são colocados na primeira fase em Coimbra. Mas dizem também que 1/3 desses alunos queria ter entrado noutra Universidade. Fica claro que a UC não é a primeira escolha entre os estudantes e, face a isto, cumpre tentar perceber o que é que motiva a generalidade dos estudante de hoje, a escolher uma Universidade.

O jovem de hoje em dia está interessado em escolher a Universidade que lhe ofereça melhores condições para combater o maior problema social dos dias de hoje: o desemprego. Quanto mais provas a Universidade der de que o seu ensino é reconhecido e acreditado pelo mercado de trabalho, mais hipóteses tem de atrair os melhores alunos.

Dar provas neste campo poderá significar inúmeras coisas. Implicará, por um lado, uma verdadeira estratégia de aproximação Universidade/Empresa (mais uma vez, atente-se às boas práticas da FCTUC) e, por outro lado, uma verdadeira preocupação e aconselhamento dos gabinetes de saídas profissionais. Poderá também implicar uma verdadeira estratégia de marketing na promoção dos cursos da UC e uma maior capitalização das redes de alumni que, em Portugal, ao contrário de países como os Estados Unidos, são tão mal trabalhadas.

Os mais cépticos e conservadores, dirão que isto é colocar a Universidade a fazer o papel do estudante. Pelo contrário, julgo que estes são passos que poderão levar a Universidade a criar uma cultura orientada ao sucesso que, sem descaracterizar o que é típico no estudante de Coimbra, irá formar trabalhadores mais dinâmicos, mais capazes, e colocar a Universidade de Coimbra onde merece: no topo.

Antes de terminar, gostaria apenas de deixar claro que alguns dos problemas identificados e soluções apontadas, não servem para todosos cursos. A UC tem óptimas práticas de sucesso nomeadamente em faculdades como a FPCEUC e a FCTUC, e o factor “taxa de colocação” não é determinante para que a UC seja a primeira escolha em determinados cursos.

Termino esta reflexão com a ideia com que comecei: toda esta abordagem poderá parecer redutora face à amplitude do tema, pelo que o debate, que é afinal o objectivo deste espaço, é muito bem-vindo.

Que Universidade de Coimbra imaginamos no futuro?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Humanismo desumano"

Caros amigos,

Como esta é a minha primeira intervenção no blogue, vou tentar partilhar de uma forma perceptível, um assunto, ou se preferirem, um pensamento/preocupação que me tem feito reflectir nestes últimos tempos.

E refiro-me à crise que a sociedade actual atravessa, não necessariamente a económica e financeira da qual já estamos saturados, mas à componente 'silenciosa' de uma crise que se arrasta há mais anos.

Neste sentido, e a meu ver, podemos e devemos ser nós, os jovens, enquanto actualidade e futuro desta sociedade global, a definir o mundo em que queremos viver. Ou será que vamos ficar eternamente à espera que ele se adapte a nós?

Afinal de contas, temos tudo! Temos saúde, vitalidade, ideias, sonhos... temos críticas! Então, porque não usar essas 'armas' para erguermos os nossos próprios princípios?! Os nossos valores! E mais do que isso, aceitar redefini-los a cada dia, a cada reflexão pessoal, a cada pensamento partilhado.

É nesta base que antevejo possível a continuidade de uma sociedade razoavelmente saudável. Não que tenhamos que viver exclusivamente numa filosofia altruísta, mas antes que se reconheça a importância da concretização individual, sem que para isso seja preciso ser indiferente a tudo o resto.

Na prática, quanto tempo temos hoje para sequer reflectir sobre o que fizemos ao longo de um dia?!... Por vezes nem cinco minutos. Uma sociedade que 'evolui' a passos largos para uma época em que muito provavelmente a maioria de nós nem poderá usufruir da sua reforma. É isto que queremos? O desenvolvimento económico a todo o custo?! "Viver para trabalhar", ao invés de "trabalhar para viver"?! Obviamente que as coisas não se pautam neste padrão "a preto e branco", mas o que me preocupa é que para lá caminhamos.

Mas mesmo assim, acredito, ou pelo menos, quero acreditar na vontade de progressão e de desenvolvimento social das gerações mais novas. Afinal, como diz o povo, "o que chega nunca é tarde", e numa altura de 'crise de valores' chegou a oportunidade singular de assumirmos o rumo que, individualmente ou colectivamente, queremos tomar.

E é certamente por isso que sinto o orgulho de poder partilhar os meus pensamentos neste blogue... com vocês. Não que espere opiniões semelhantes, mas antes que vos possa transmitir a necessidade de reflectir o nosso futuro e sobretudo que possa aprender convosco.


Saudações académicas,

Rúben Rodrigues

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"Pragmatismo Funcional"

Foi-me feito o convite de participar neste fórum de discussão, em que o mesmo seria um espaço de reflexão sobre os vários problemas com os quais nos confrontamos diariamente. Foi igualmente feita a referência a possíveis soluções. Noutro tom: dar uma espécie de solução.

Vivendo eu no mundo do associativismo académico, ao qual muito devo a minha formação, exponho a minha simples teoria de “pragmatismo funcional”, algo chato para muitos, pois envolve capacidades cada vez mais raras como responsabilidade, bom senso, trabalho…, decerto recursos escassos nos tempos que decorrem, tão marcados por intenções “queimadas”, justificadas com o justificativo esclarecimento ainda (obviamente) não dado…!

Pela obrigatoriedade de eu próprio seguir esta “filosofia”, sou conhecido como uma pessoa competente, trabalhadora e acima de tudo (perdoem a vulgaridade) um chato do caraças! Fere-se a quem de repente é confrontado com a realidade de “se queres algo feito, tens que trabalhar para isso”! Algo a que mais uma vez refiro é custoso a muita gente! Já Adam Smith o afirmava que «trabalho é esforço e suor».

Pode parecer uma análise violenta e é certo que todos nós podemos identificar um cem números de casos em que vemos uma pessoa com três cargos distintos, com namorada, vai ao ginásio, pertence ao clube das setas, tem um part time ao fim-de-semana, olheiras de carvão e um semi-ataque cardíaco aos 30!

Manifestamente um exagero, quando se pretende um equilíbrio, igualmente difícil de se atingir. Mas para tal, é igualmente necessário um esforço para se sair da inércia e do plano do «eu faço depois ou deixo para o outro que fará por mim…!»

Ao concreto, um exemplo caricato que um dia testemunhei, foi constatar uma declaração/reivindicação para que as senhoras da limpeza da Associação Académica fossem limpar a sala, de enormes dimensões 3x3m. Para tal, foi criado um documento formal, enviado por correspondência, entregue na secretaria, remetido ao administrador, para seguir ao presidente! Ao qual a resposta foi remetida ao administrador, que enviou à secretaria, esta respondeu ao remetente! Com a resposta: “ o assunto foi recebido e serão tomadas as devidas providências”!

Conclusão: nada feito! Solução “pragmática funcional”: ir falar directamente com as senhoras da limpeza! Ou… solução à Igor: comprar a vassoura + pá+ sacos do lixo + um panito, e proceder às correspondentes limpezas, que demoram 4 minutos e 32 segundos!

Os mais burocráticos irão defender que as responsabilidades são deste e daquele, que não se deve assim nem assado… E, entretanto, o lixo acumula, as paredes estão sujas, as casas de banho estão partidas…etc.

A aplicação de uma atitude prática pode significar o sucesso de uma empresa, de uma associação e mesmo de uma família. Sou da opinião de que o exemplo deve vir sempre de nós, por isso não considero vergonha apanhar o lixo à beira da minha casa, de colocar novamente um cartaz que caiu no chão, de lavar a louça dos meus colegas e de responder às mensagens em tempo útil. Uma organização mínima, entre tantos outros exemplos.

Infelizmente, vejo-me a elogiar quem assim o pratica, e elogio pouco, e não porque não goste de elogiar. Desafio-vos da próxima vez em que determinada situação for aplicável este “funcionalismo prático” a assim o procederem e dêem o vosso testemunho nos comentários.

Todo este texto parece um pouco descabido, e descentrado das últimas intervenções neste espaço, mas fazendo um esforço abstracto imaginem como seria o mundo à nossa volta com a prática desta “filosofia”.

Igor Pereira

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Deterioração da Escola - Uma análise da atmosfera educativa actual

Aproveito este momento de reflexão para felicitar o impulsionador deste blogue, por mais uma vez demonstrar a sua incurável motivação para a mudança.

Relativamente a esta minha primeira intervenção, irei focar-me numa realidade com a qual tenho contactado directa e indirectamente nos últimos cinco anos. Refiro-me à Educação, mais especificamente ao seu estado actual.

O cenário do sistema educativo português é verdadeiramente dramático. Arrisco concluir que o funcionamento deficiente da Educação em Portugal é uma das principais causas estruturais do atraso do nosso país. A decadência que enforma o estado geral da nossa Educação está a transformar-se em irremediáveis consequências sociais. Perante este facto, parece-me impossível que este problema continue a ser levianamente menosprezado pelos organismos do poder português.

O que se tem feito realmente para colmatar as históricas lacunas consequentes das teorias pedagógicas facilitistas adoptadas pelo poder? Arrisco mais uma vez a concluir que nada se tem feito! Bem pelo contrário! A Escola pública portuguesa é actualmente um desenho claro de insucesso, irresponsabilidade, indisciplina e perversidade.

Mais ridículo é sabermos que os relatórios da OCDE nos colocam como recordistas em matéria de iliteracia, abandono e insucesso escolar, e sabermos ainda que o nosso problema está na qualidade do investimento que é feito na Educação em Portugal e não tanto na quantidade desse investimento. Na realidade, gastamos mais em Educação do que grande parte dos nossos parceiros europeus.

Então, não sendo por falta de investimento que nos confrontamos com os mais baixos níveis de desempenho nos rankings internacionais, quais são as verdadeiras razões para este mísero panorama?

É fácil concluir que se investimos mais em Educação do que as grandes potências económicas europeias, estamos evidentemente a investir mal. E porquê? Bem, a minha embrionária experiência tem-me mostrado que nos temos baseado num modelo de gestão escolar absolutamente leigo, desprovido de profissionalismo. A esta redundante falha acresce ainda a ineficiência clara dos poderes centrais e regionais da Educação, que subaproveitam os recursos humanos existentes e esbanjam os recursos financeiros.

É urgente uma total reforma educativa, que só é possível através de uma revisão curricular, uma reestruturação das teorias pedagógicas e uma definitiva profissionalização da gestão escolar. A partir daqui será possível aperfeiçoar o nível geral do sistema educativo português.

Finalizo com um apelo à discussão pública deste tema, que efectivamente tem várias vertentes. Neste caso, a questão que se coloca não será tanto “o que podemos fazer pelo nosso país”, pelo menos em termos práticos. É uma mudança estrutural que é indispensável. E esse é um problema técnico-político, que deveria ser devidamente considerado pelo poder central.

Saudações Académicas,


Soraia Almeida

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Deus, Pátria e FAMÍLIA

Nesta breve intervenção, não pretendo fazer nenhuma análise histórico-cultural de Portugal, nem basear-me em nenhum estudo sociológico avançado, nem sequer invocar passagens da Bíblia ou da nossa Constituição, que possam fundamentar os meus pensamentos. Apenas transmitirei uma pequena opinião acerca do presente.

Tendo eu nascido em 1984, os conceitos “Deus, Pátria e Família”, têm-me sido transmitidos por diversas gerações que viveram durante o Estado Novo, como indissociáveis e bastante presentes no quotidiano da sociedade da época.

Focando-me com maior pormenor na “Família”, considero que todos os estratos sociais e grupos ideológicos da época lhe davam uma importância primordial o que, nos dias que correm, infelizmente, tem perdido relevo.

No meu ponto de vista, para os crentes ou para os não crentes em Deus, para os leais ao antigo regime ou para os revolucionários e democratas, para os oprimidos e perseguidos ou para os detentores e controladores do poder, estiveram sempre presentes em primeiro lugar nos seus pensamentos e acções, importantes valores patrióticos e familiares. Da mesma forma que o comum cidadão português, com restrições anti-democráticas à liberdade de expressão e graves dificuldades financeiras, colocava a Família acima de tudo, também a elite fascista, independentemente da forma errada como actuava na sociedade, tinha como prioridade a Família. Nos dias que correm, a sociedade tem modificado as suas prioridades, com consequências evidentes a todos os níveis.

Mas como pode ser definida a “Família”? Considero que a “Família” pode compreender: amor e carinho, compreensão e paciência, honestidade, força e determinação para superar dificuldades, apoio incondicional, educação e formação pessoal/humana/social. São alguns exemplos de atitudes e sentimentos sempre subjectivos, intermináveis e extremamente difíceis de exprimir por palavras, por vezes esquecidos, mas que deveriam estar sempre presentes na nossa vida.

São estes princípios e valores, transmitidos de geração em geração que nos fazem adquirir uma determinada personalidade, crescer e amadurecer como seres humanos, que nos fazem ir em busca do conhecimento, ter ambição profissional, ser competentes e, ao mesmo tempo, voltar permanentemente ao início, à origem, à Família.

Será que a ausência/deturpação dos sentimentos humanos mais elementares e ao mesmo tempo vitais para a nossa formação estarão na origem dos problemas mais graves da nossa sociedade? Será que assuntos tão diversos e diferentes como a deterioração do comportamento dos jovens adolescentes, o aumento do número de divórcios, a gestão danosa das contas públicas, as enormes carências sociais ou o crescente índice de criminalidade, apesar de extremamente complexos, não terão uma origem tão essencial e tão comum?

sábado, 1 de janeiro de 2011

Academia e Sociedade

Numa análise simples da política nacional, é imperativo recuperarmos a ideia de que um regime democrático saudável existe se e só se a política não se transformar numa profissão e se for um serviço público, que exige “apenas” uma renovação constante.

Podemos já tirar uma conclusão: vivemos num país demasiado afastado do que seria um regime sinárquico, que permitisse a candidatura para cargos públicos apenas a quem já tivesse anos de trabalho profissional.

É igualmente indispensável, para organizarmos o nosso raciocínio, centrar-nos no Estado-providência ou, como actualmente é chamado, correctamente, o Estado Social.
O Estado Social é composto, maioritariamente, pelos Sectores públicos da Educação, da Saúde, da Justiça e da Segurança Social. São os 4 principais pilares de um Estado de direito, livre, democrático e solidário!

Envolvendo praticamente todos os Ministérios governamentais, muitas vezes por pura desorganização (e.g. a existência dos inúmeros Subsistemas de Saúde, como os das Forças Armadas, o da GNR, o da PSP e o da ADSE é uma franca falha organizativa e um mau exemplo sectárico do Estado, visto que o Serviço Nacional de Saúde é, ou deveria ser, verdadeiramente universal, como está previsto no artigo 64º da nossa Constituição), o Estado Social representa quase 50% do Orçamento de Estado. São cerca de 40 mil milhões de Euros de investimento por ano!

Percebendo esta dimensão, é incompreensível que não existam Entidades Reguladoras a actuar em todas as actividades económicas (principalmente nestas!). Mas elas existem! Só que não actuam. 
Só no sector público da Saúde, existe um investimento sem objectivo de cerca de 25%. São despesas não produtivas, responsáveis, em grande parte, pela insustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde. E, enquanto se fazem estas previsões, não há nenhum estudo que verifique a real dimensão do problema e perspective mudanças!

Pergunto-me se não seria indispensável garantir a imparcialidade destas Entidades Reguladoras, evitando a subversão pelo regime de nomeação governamental, que existe actualmente. Pessoalmente, acredito que faz todo o sentido.
Afinal de contas, o nosso governo é, na maioria dos casos, regulador, regulamentador e concorrente nas mais variadas actividades económicas, de estilo socio-liberal (retomo o exemplo da Saúde, com o sistema público - Serviço Nacional de Saúde -, existindo também o sistema privado e o sistema social [estes dois últimos sistemas já ocupam cerca de 30% do sector]).

Alguns defendem que a melhor hipótese seria transferir a responsabilidade dessas nomeações para a Assembleia da República. Mas isso seria apenas diminuir, e não acabar com o problema.
Penso que democratizar os sectores de fiscalização é fulcral para a credibilidade do nosso país, para quem nele quiser investir, quer sejam entidades nacionais ou entidades externas. Para desempenhar estas funções, devemos aproximar os centros do saber e do conhecimento.
Acredito que a melhor forma de o fazer é democraticamente, através da eleição de especialistas nas mais variadas áreas, vindos das Universidades públicas. E como? É essa mesma discussão que gostaria de ver aqui participada.

Aproveito ainda para saudar a importância de vermos, nestas discussões, pessoas provenientes de diferentes áreas do saber, pois só assim, aproveitando os conhecimentos individuais, conseguimos planificar alternativas concretas de futuro.
Quando, em Coimbra, muito se defende a remodelação do Estádio Universitário ou a revitalização da Baixinha, assistimos à inércia de não agrupar uma equipa de Estudantes de Arquitectura, de Engenharia Civil e de Engenharia do Ambiente para efectivar projectos de arquitectura, devidamente orçamentados e enquadrados paisagisticamente. Um exemplo vindo de Coimbra, da comunidade estudantil, mas que é, infelizmente, o mesmo problema do país: a incompetência política, a falta de discernimento em encontrar as nossas mais-valias, o descrédito do espírito altruísta e empreendedor e o desconhecimento do que é uma cidadania dinâmica.


Desejo a todos um belíssimo Ano 2011!



SAUDAÇÕES ACADÉMICAS


Hugo Ribeiro