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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Obama anuncia a morte de Bin Laden

Barack Obama anunciou esta noite a morte de Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda e responsável por inúmeros actos de violência e atrocidade contra inocentes. Desde o primeiro minuto, o povo americano saiu à rua, alegrando-se com a notícia.

É perfeitamente compreensível. Afinal, Bin Laden é o símbolo máximo da grande ameaça que tem pairado sobre os EUA ao longo dos últimos anos.

O primeiro ponto para o qual quero chamar a atenção, no entanto, é que, ao contrário do que anunciou o Presidente Obama, não foi feita justiça. Não há justiça no assassínio de um homem, por monstruosos e incomensuráveis que os seus crimes possam ser. Tirar a vida ao próximo, por muito natural e humano que seja esse instinto em face da ameaça, não é uma resposta, não é um caminho que, em liberdade e consciência, possa ser escolhido.

O segundo ponto tem a ver com a questão da ameaça. O perigo não desaparece hoje do horizonte dos EUA. Osama bin Laden deixou hoje de ser uma ameaça, mas outros se levantarão e tomarão o lugar dele. Porque ontem Bin Laden já não era tanto a ameaça como o símbolo dessa ameaça: os EUA continuarão a ter inimigos exteriores, que lutarão para privar o povo americano da sua liberdade, que continuarão a odiar o País e, por inerência, os seus cidadãos.

Mas continuarão, sobretudo, a ter inimigos internos: todos aqueles que, tendo cidadania norte-americana se opõem a um caminho de maior liberdade e fraternidade, que exploram a maioria do seu povo, que fazem uso indevido dos recursos, que pelas suas acções e omissões constroem uma sociedade menos livre. O perigo reside tanto do lado de cá do Atlântico como nas cidades e vilas da América.

Termino com um desejo, uma esperança: possam os EUA fazer deste dia simbólico o pontapé de saída para a mudança real e efectiva na maneira como conduzem a sua política externa, promovendo de facto a liberdade dos povos e a paz entre as nações. Mas não se pode querer salvar o mundo, se não se tem a legitimidade e a capacidade de se salvar a si próprio. A mudança tem de começar a partir de dentro.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Sociedade anti-educação

Ultimamente fala-se muito de educação. No nosso país, onde a idade mínima de educação obrigatória têm sido cada vez mais alta, vemos a grande quantidade de jovens com ensino superior desempregados. Mas o que se passa afinal? Será o que o mercado ficou saturado de tantos alunos com elevadas qualificações? É provável, mas na minha opinião não é esse o problema. Acredito que o sistema de educação não está a servir o paradigma social actual.
Há quem diga que o ensino é cada vez menos rigoroso, que há demasiadas distracções, que os conteúdos não são os mais correctos, ou que não há respeito pelos professores. Eu posso concordar com este factores, principalmente com o último, mas o que mais me preocupa, é o real desaproveitamento das capacidades dos alunos. Se um aluno é excelente a matemática, e se sente motivado com a matemática, deve aprender mais matemática e ser bom nessa área. E depois de estar motivado nesta, vai querer aprender as outras coisas. O que o ensino actual faz é obrigar os alunos a saber uma série de conceitos, que muitas vezes não são aprendidos, mas decorados. Colocados numa memória temporária, para se poder passar naquele teste ou exame. E quando se aplica uma situação na vida real, ou quando surge uma situação diferente, eles não sabem como reagir porque não foram preparados para situações incomuns, não foram preparados para situações que necessitem de soluções criativas.

Nesta conferência que vão perceber melhor o que estou a dizer.
http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html

Aqui surge o conceito da arte e criatividade que penso ser tão importante que o português ou a matemática. Hoje em dia temos um ensino muito semelhante, cujo objectivo é afunilar num conjunto de conhecimentos. Mas na nossa vida necessitamos de saber um grande e variado leque de conhecimentos, e mais importante que os saber, é onde os encontrar no momento em que se necessita deles.

O ensino de há 20 anos atrás reflecte-se hoje na sociedade. Estamos numa altura de crise e encontra-se muita gente desempregada. E quais são as soluções dos recém-graduados de hoje? Onde está a criatividade, a pro-actividade e atitude para lidar com a sociedade actual? Todos aprendemos a ser (e somos bons) treinadores de bancada, mas quando é necessário tomar iniciativas sociais, identificar problemas e criar as soluções, ou mesmo desenvolver projectos no seio da família ou da comunidade… Ficamos quietos, pois isso nunca aprendemos a fazer. Não aprendemos a criar, a correr riscos, apenas aprendemos que não podemos errar.
Num pequeno à parte, nos Estados Unidos, temos casos de pessoas que depois da falir 3 empresas, foram ao banco pedir dinheiro para uma nova empresa e esse financiamento foi mais fácil. Se isto parece um paradoxo, também me parece que depois de falir 3 empresas, deverá ter aprendido a não cometer os mesmos erros, e a probabilidade de vir a falir novamente será mais reduzida.

Concluindo em relação à nossa educação, gostava de referir o novo modelo de ensino democrático como o da escola da ponte. (Podem ver mais aqui http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Y9zHemGrquU e aqui). As crianças são curiosas por natureza e têm desejo de aprender, mas perdem todo o interesse, quando a sua curiosidade é sufocada pelos programas impostos pela burocracia governamental. A escola da ponte é diferente, abarca os 1º, 2 e 3º Ciclos do ensino básico, mas em tudo é especial: não têm turmas, não têm alunos separados por classes, os professores não dão aulas com giz e quadro, não têm campainha que separe o tempo, não têm teste nem notas. Esta escola permite um ensino personalizado, baseado em pilares de democracia e de cidadania. Aqui os Professores não têm um programa a seguir mas têm o papel de "seduzir" para as matérias que os alunos nunca experimentaram. Os alunos é que planeiam o seu estudo, debatem o que acham bem e mal. Têm direitos afixados nas paredes entre os quais transcrevo um: "Toda criança tem o direito de não ler o livro de que não gosta.". Inclusivamente nesta escola são eles que criam as suas próprias leis. Uma dessas leis é a seguinte: "Temos o direito de ouvir música enquanto trabalhamos, para pensar em silêncio.".

Espero que esteja aqui a solução para a nossa sociedade… Daqui a 20 anos.

terça-feira, 8 de março de 2011

Inconsciência Natural

Numa tarde de um domingo soalheiro, ia eu a conduzir o carro, na estrada
que percorro frequentemente. Passo por casas de fachada gasta, muros que
escondem nada, e ruas que se cruzam numa densidade, que a mim, condutor
habitual naquela estrada, nenhuma confusão me mete. A monotonia é tal que as
mudanças metem-se por elas próprias, o volante conduz-se, e o pára-arranca é
tão natural como a divagação do pensamento.

Nesta minha primeira intervenção, poderia falar das estradas portuguesas, do
trânsito, e dos costumes de condutor de domingo, mas não é isso que vou fazer. O
que me motiva é a nossa inconsciência natural naquilo que fazemos na azáfama
diária. Um condutor que aprendeu a conduzir aos 18, 20 anos, aprende as regras
de trânsito, aprende o funcionamento de um carro, testa o seu funcionamento,
aprende praticando e a cometer alguns erros. Eu pessoalmente, quando aprendi
o código e a condução, coloquei muita coisa em causa, tive várias discussões com
o meu instrutor e cheguei à conclusão que em alguns aspectos o funcionamento
do código ou da condução não me pareceu o mais adequado. Depois fui-me
habituando, e neste momento nem dou conta de que estou a conduzir...

Agora imaginem que nós nascíamos já a saber conduzir. Que isso se aprendia
como falar ou comer. Será que colocaríamos em causa as regras de condução?
Na verdade nós aprendemos muita coisa e compactuamos com ela sem nos
apercebermos. A nossa cultura, o nosso sistema político, o nosso sistema
económico...

Centrando-me um pouco no nosso sistema económico, já que é, a meu ver, aquele
sistema que hoje em dia tem uma maior relevância na sociedade, por vezes
conseguindo uma conotação sobrenatural.

Não há muitas gerações atrás vivia-se numa época de práticas económicas
mercantis. Um cesto de maçãs era trocado por um cesto de couves, simples e
directamente. Com o sistema económico actual as coisas não assim tão simples.
Hoje em dia o que pode parecer um bocado de papel com o poder de comprar
alguma coisa material, envolve muitos processos e desvalorizações num
processo cujo objectivo é exactamente desvalorizá-lo de forma a que quem o
controla possa incrementar os seus lucros.

Corporações financeiras como a Reserva Federal ou o Banco Central Europeu tal
como o funcionamento dessas corporações assentes num sistema de reservas
fraccionárias, não são mais do que mecanismos de criar dinheiro virtual (que
podemos perceber melhor em documentários como o Zeitgueist), e todos os dias
compactuamos com este sistema sem nos questionarmos.

Quando era pequeno costumava jogar Monopólio, e depois de umas horas entre
vender e comprar propriedades, comprar casas e cobrar passagens, chegava
ao fim do jogo, comigo, ou com um dos outros jogadores, a ganhar tudo. Mas
agora vamos jogar um monopólio mais interessante e colocar a banca num
dos jogadores: ele pode emprestar dinheiro cobrando uma taxa de 10% pelo
empréstimo. Mas ele basicamente está a cobrar um dez avos de dinheiro que não
existe no tabuleiro. Depois de sucessivos empréstimos o que acontece??

Ainda a pensar no meu velho jogo do Monopólio, vamos supor que no início há
100 contos no tabuleiro, 50 do jogador que controla a banca, e os restantes 50
são para os restantes 25 jogadores que partiram com 2 contos cada um, com
os quais podiam comprar 10 terrenos. Há apenas 5 jogadores que podem pedir
dinheiro emprestado ao jogador que controla a banca, e emprestar a outros
que por sua vez também emprestam aos restantes. Quando formos contabilizar
todo o dinheiro, incluindo os empréstimos, estão 1000 contos em jogo. O que
acontece? Como os terrenos são os mesmos, eles terão de desvalorizar 10
vezes para compensar o dinheiro que existe em jogo. É fácil ver que o jogador
controlador da banca que inicialmente tem 50% do valor total é o que vai
aumentar mais a sua capitalização já que cobra juros directa ou indirectamente
a todos os outros que compactuem com as regras do jogo. Os 5 restantes que
também puderam emprestar também vão conseguir capitalizar o seu dinheiro.
Os que partiram com 2 contos, neste momento têm uns fantásticos 6 contos. Mas
agora que têm o triplo do que tinham, os terrenos valem 10 vezes menos e neste
momento apenas poderão comprar 3 ao contrario dos 10 iniciais!

Entramos num ciclo vicioso, pois quantos mais empréstimos maior é a
desvalorização e quanto maior é a desvalorização menor poder de compra terão
os que partiram sem poder manipular as próprias regras do jogo.

A aritmética que aqui apresento é apenas uma sintetização de um grande
processo que se pretende o mais complexo possível, de forma a que quando
chegamos ao nosso destino não damos conta que o valor do dinheiro com o qual
partimos é menor.

Eu vou continuar a minha viagem e aproveitar para não me distrair com
pensamentos considerados infundamentados. Vou contemplar as fachadas
podres, os muros que existem para esconder algo e caminhar pelo emaranhado
de estradas que só não me confundem porque eu nasci como elas.