terça-feira, 15 de março de 2011

Uma Nova República?

Congratulo em avanço o leitor desta tentativa de pensamento em prosa: é preciso paciência para ler um texto escrito por mim. Quanto mais não seja porque estou constantemente a introduzir notas “poéticas” nos meus escritos com o objectivo de me convencer de que escrevo bem. Cada um com sua tara…

É neste tom informal e casual que pretendo começar a abordagem ao tema que proponho. Em primeira análise importa perguntar: o que é afinal a “Res Publica”? Muitos decerto responderão que se trata de uma forma de poder eleito ou elegível “do povo, pelo povo e para o povo”, com base nos trâmites históricos da cidadania, e na separação de poderes do Estado para não nos alongarmos muito mais na definição nem entrar em mais detalhes (todavia importantes). Errado (quanto a mim). Isso é a DEMOCRACIA: a fórmula Lincolniana positiva de poder popular, “lida” em conjunto com Rousseau e Sieyès para uma melhor perspectiva histórica da questão confirmará esta minha afirmação. E, no que toca aos princípios básicos de organização do poder político e da sociedade, com o primado do Direito, deparar-nos-emos com a definição de ESTADO DE DIREITO, a qual se vem conjugando com o princípio Democrático e da Socialidade ao longo do Século XX (para uma melhor compreensão do que afirmo sucintamente demais vide “Direito Constitucional – Teoria da Constituição” de J.J. Gomes Canotilho). Veja-se para simples referência o que nos diz o tão facilmente mobilizável instrumento que é a “Wikipédia”: “O conceito de república não é isento de ambiguidades, confundindo-se às vezes com democracia, às vezes com liberalismo, às vezes tomado simplesmente no seu sentido etimológico de "bem comum". Hoje em dia, o termo república refere-se, regra geral, a um sistema de governo cujo poder emana do povo, ao invés de outra origem, como a hereditariedade ou o direito divino. Ou seja, é a designação do regime que se opõe à monarquia.”

Então em que ficamos? Será possível termos uma “República Monárquica Constitucional”? Não! É que, através da definição que nos é dada pelo magnífico orador Marco Túlio Cícero no seu “De Res Publica”, “um governo republicano é aquele que põe ênfase no interesse comum, no interesse da comunidade, em oposição aos interesses particulares e aos negócios privados”. Vemos então que a República unindo-se ao significado de Democracia e de Estado de Direito numa relação lógica, é uma forma de governo que toca o interesse da colectividade, confundindo-se com estas definições.

Então podemos, se seguirmos este raciocínio já tivemos, na História do Mundo, muitas “Repúblicas”: as Repúblicas clássicas da Grécia e de Roma; com a Revolução Francesa e Americana inauguramos a República Liberal, que, entre interregnos de Monarquia Constitucional, perdura até ao séc. XX, alterando a sua definição para República Democrática; com a Revolução Russa aparecem-nos as Repúblicas Socialistas; a crise de 1929 ataca as bases do capitalismo, fazendo surgir a República Social; segue-se o interregno de regimes ditatoriais Fascistas, Nazis, Militares e “Religiosos”, que podemos configurar como o verdadeiro oposto da República; e na segunda metade do séc. XX reaparecem as Repúblicas Sociais. Podemos até avançar que no fim do século atingimos uma nova República: a República Global. A afirmação do Direito Internacional, do mercado global, e das políticas comuns entre Estados precipita a Globalização da coisa pública e dá-lhe uma novíssima feição. Embora ainda existam regimes ditatoriais no mundo, é seguro dizer que a forma de governo do séc. XXI é a República Democrática “Globalizada”. Ora, a nossa sociedade hodierna traduz-se diariamente na hipertrofia da moralidade e da consciência, na busca do homem da sua razão egoística de ser, no “homem como lobo do homem” de Hobbes. Senão vejamos aonde os nossos regimes Democráticos estão a chegar: Povo desencantado; Partidos Políticos e Instituições descaracterizadas; Proliferação da Demagogia e da Política de Profissão; Facilitismo no Ensino e preocupação na estatística. Bem dizia Keynes que o “Capitalismo é a forma natural de afirmação e organização Humana, não há como evitá-lo”! A nossa única solução reside no Direito e na vontade do Povo.

Porquê esta minha procura de significado de “Res Publica”, perguntas tu que pacientemente vais lendo? Simples. Será uma coisa pública a Democracia que se degrada com bandos de oportunistas e interesseiros que atacam as estruturas das nossas mais belas instituições, desde o topo à base, alimentando-se diariamente da ambição humana, com que jogam como se fora um jogo de fortuna ou azar, viciado à partida? Será República aquela em que uns sobrevivem à custa de outros, numa sociedade que se diz moderna? Não, mas infelizmente é essa a nossa República: a República Egoísta. Já o Britânico Lord Byron dizia, em jeito pessimista, que “o Diabo foi o Primeiro Democrata”.

Não pretendo influenciar ninguém com esta dissertação, já que ela é claramente vincada de traços ideológicos meus: sou Socialista Democrático (para não dizer Social-Democrata, já que a corrupção de significados neste país é tão grande que é preciso ter cuidado), considerando o Estado de Direito Democrático a única forma justa e verdadeira de organização e regulação da sociedade, e o Socialismo (não entendido no seu significado Marxista-Científico) a única forma humana. Urge, pois, realizar a República que os nossos avós sonharam, um verdadeiro Estado de Direito Democrático e Social mas acrescentando-lhe um novo factor, tantas vezes ignorado: a Ética. Irónico é que já Platão o preconizara. Falando pela boca de Sócrates apelava que “o comportamento Ético é (…) a única salvação da consciência humana”. O amor pelo bem e pelo justo, pela livre discussão, pelo ser Humano: aqui temos a Ética. Precisamos de uma Nova República, uma República de Direito e direitos: Uma República Ética!

“A democracia é uma forma de governo que prevê a livre discussão, mas que só é atingida se as pessoas pararem de falar e começarem a ouvir”.

E com isto me calo…

sexta-feira, 11 de março de 2011

Os Pilares da Sociedade

Muito se tem falado dos pontos fracos do sistema tal como o ensino ou a economia que de certo são temas bastante profundos. No entanto, numa perspectiva mais generalista, existem dois sistemas fundamentais indissociáveis que são intemporais e responsáveis pelo bom ou mau funcionamento de uma sociedade. Refiro-me pois à educação e à justiça e, note-se que, a escola não é a educação nem os tribunais a justiça mas sim parte integrante destes dois sistemas.


Agora questionamos: "O que tem isto a ver com os problemas em que vivemos hoje?". Todos nós imaginamos (pelo menos) que no tempo medieval os usos e costumes seriam diferentes do que vivemos hoje e que a mentalidade seria um tanto ou quanto macabra mas estes dois pilares estavam bem presentes na sociedade pois a educação partia de um conjunto de valores adquiridos pelo povo e pela corte que se regia por uma justiça imposta pela corte (em certa parte). Hoje em dia os tempos mudaram mas continuamos a ter estes dois pilares a suportar a sociedade pois a educação parte de um conjunto de valores, transmitidos pelos nossos pais, escola, etc. que são igualmente regidos por uma justiça (constituição, punições, etc). Valores diferentes mas adequados a cada sociedade e que quando quebrados geram conflito. Após esta pequena analogia generalizo todo este caos que presenciamos diariamente.


Todo o conceito de educação tem o objectivo de nos tornar bons cidadãos que respeitam e fazem progredir uma sociedade. Quando estes conceitos falham tem que haver justiça para advertir/punir o cidadão. Ora quando não existe uma justiça que funcione correctamente a educação cai, e ao cair a educação cai a justiça pois quem a aplica não tem educação. Conclusão: Sem justiça não há educação e sem educação não há justiça. Posto isto, como podemos exigir nós desta sociedade onde a justiça é parcial? Se a educação está a ser banalizada como podemos combater uma justiça corrupta? Será que ainda há esperança na juventude? Questões que me acompanham diariamente e me fazem pensar de que forma isto poderá mudar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Portugal: um país desfasado da (sua) realidade

O tema que hoje me proponho trazer à consideração dos "nossos" leitores é um tema que, embora aparentemente simples, se reveste de uma tremenda complexidade e que se relaciona com algo que, acredito, condiciona (e muito) a nossa sociedade e, mais concretamente, a (auto)designada "geração à rasca".



Como estudante que fui, acompanhei, pessoalmente e por intermédio de colegas e amigos, o proliferar de cursos neste pequenino país "à beira mar plantado".

Falo não só da criação de novos cursos (nem que de novo tenham só a sua designação), mas também do exponencial aumento da distribuição geográfica dos cursos já existentes.



Hoje em dia, sejamos sinceros, toda a gente tem (ou acha que tem) que ter um curso superior - mesmo que isso signifique, tão-só, a possibilidade de passar mais uns 4 ou 5 aninhos (3 ou 4 depois de Bolonha) debaixo da asa dos papás, sem ter que enfrentar o mundo e o mercado de trabalho. Sendo certo que, não poucas vezes, são os próprios pais que "empurram" os seus filhos para a frequência de um curso superior.



Naturalmente que sou daqueles que defende (com unhas e dentes, se for caso disso) o direito de todos e cada um ao ensino e ao incremento da sua formação.

Mas, infelizmente, aquilo que observei e observo é que, para grande parte dos estudantes, a escolha do caminho escolar a seguir prende-se menos com a prossecução de uma vocação ou de um objectivo de e para o futuro, mas com a (falsa) ideia de que (e adaptando uma célebre rábula dos Gato Fedorento) "quem tem um curso superior é fixe e quem não tem um curso superior não é fixe".



Isto leva a que tenhamos não só o tal excesso de cursos (de que já falei), mas também a que a formação oferecida e conseguida não convirja com as reais necessidades do país.



Recentemente, fui colocado perante a ideia (que, como se perceberá acolho) de que deveria ser feito um planeamento das necessidades do país e, em consonância, gerir-se o sistema educativo superior.

Ou seja, determinar quantos médicos, engenheiros, advogados, enfermeiros (etc...) é preciso formar para fazer face às exigências populacionais nos próximos anos.

E, com base neste estudo/cálculo, determinar o número de cursos e o número de vagas à disposição daqueles que, terminado o ensino secundário, queiram seguir o seu percurso escolar.



Se as coisas fossem feitas desta maneira (a meu ver bem mais racional e, por isso, mais justa) não teríamos milhares de futuros formados e recém-licenciados a calcorrear as ruas como forma de protesto pela falta de emprego.

Note-se que a solução que referi não é uma forma de se acabar com os preocupantes níveis de desemprego que assolam o país, é, antes, uma forma de, pelo menos, não criar falsas expectativas!



Além do mais, como também já disse, não creio que o ensino superior seja algo obrigatório para que se consiga um emprego (ou um trabalho)... Penso que deveria haver uma mais séria aposta na formação profissional e, até, incentivar-se e recompensar-se os jovens que optassem por, desde cedo, ingressar no mercado de trabalho.

Não nos esqueçamos que, no estado actual do nosso país, mais pessoas a trabalhar significa, por um lado, um desonerar dos cofres do Estado, e, por outro, uma possibilidade de aumento das colectas fiscais - visto que um maior número de pessoas estariam em posição de pagar impostos.



Sei que ao falar na questão dos impostos muitos me acusarão de ser fascista (sim, há pessoas que pensam deste modo)... Mas se queremos que o Estado tenha capacidade para cumprir os seus deveres "sociais", temos que garantir que o possa fazer - é que, como sempre me disse a minha avó: "o dinheiro não cresce nas árvores".



Voltando ao tema deste post (e pedindo desculpa por este "desvio"), acrescento que este modelo é já seguido nos países do Norte da Europa - aqueles que até para a nossa Ministra da Educação são, acima de qualquer outro, o exemplo a seguir.



Portugal é, nos dias que correm, um país de enganos e de falsas aparências... Ter um "dr." ou um "eng." como prefixo já não significa o prestígio de outrora...

Bem vistas as coisas, ter uma licenciatura já nem significa que se tenha ou se consiga um emprego (mesmo numa área diferente da da formação académica seguida)...



Não será muito melhor deixarmos de "atirar areia" para os olhos das pessoas e, com seriedade, estruturarmos o seu/nosso futuro?

Não será muito mais justo, mesmo que isso signifique o colapso das estatísticas (de que se alimenta o Governo), formar apenas os profissionais que precisamos, nas áreas que precisamos?

E, havendo essa justiça, não seremos todos muito mais felizes?



Além do mais, para beber uns canecos não é preciso andar na Universidade!!! ;)

terça-feira, 8 de março de 2011

Inconsciência Natural

Numa tarde de um domingo soalheiro, ia eu a conduzir o carro, na estrada
que percorro frequentemente. Passo por casas de fachada gasta, muros que
escondem nada, e ruas que se cruzam numa densidade, que a mim, condutor
habitual naquela estrada, nenhuma confusão me mete. A monotonia é tal que as
mudanças metem-se por elas próprias, o volante conduz-se, e o pára-arranca é
tão natural como a divagação do pensamento.

Nesta minha primeira intervenção, poderia falar das estradas portuguesas, do
trânsito, e dos costumes de condutor de domingo, mas não é isso que vou fazer. O
que me motiva é a nossa inconsciência natural naquilo que fazemos na azáfama
diária. Um condutor que aprendeu a conduzir aos 18, 20 anos, aprende as regras
de trânsito, aprende o funcionamento de um carro, testa o seu funcionamento,
aprende praticando e a cometer alguns erros. Eu pessoalmente, quando aprendi
o código e a condução, coloquei muita coisa em causa, tive várias discussões com
o meu instrutor e cheguei à conclusão que em alguns aspectos o funcionamento
do código ou da condução não me pareceu o mais adequado. Depois fui-me
habituando, e neste momento nem dou conta de que estou a conduzir...

Agora imaginem que nós nascíamos já a saber conduzir. Que isso se aprendia
como falar ou comer. Será que colocaríamos em causa as regras de condução?
Na verdade nós aprendemos muita coisa e compactuamos com ela sem nos
apercebermos. A nossa cultura, o nosso sistema político, o nosso sistema
económico...

Centrando-me um pouco no nosso sistema económico, já que é, a meu ver, aquele
sistema que hoje em dia tem uma maior relevância na sociedade, por vezes
conseguindo uma conotação sobrenatural.

Não há muitas gerações atrás vivia-se numa época de práticas económicas
mercantis. Um cesto de maçãs era trocado por um cesto de couves, simples e
directamente. Com o sistema económico actual as coisas não assim tão simples.
Hoje em dia o que pode parecer um bocado de papel com o poder de comprar
alguma coisa material, envolve muitos processos e desvalorizações num
processo cujo objectivo é exactamente desvalorizá-lo de forma a que quem o
controla possa incrementar os seus lucros.

Corporações financeiras como a Reserva Federal ou o Banco Central Europeu tal
como o funcionamento dessas corporações assentes num sistema de reservas
fraccionárias, não são mais do que mecanismos de criar dinheiro virtual (que
podemos perceber melhor em documentários como o Zeitgueist), e todos os dias
compactuamos com este sistema sem nos questionarmos.

Quando era pequeno costumava jogar Monopólio, e depois de umas horas entre
vender e comprar propriedades, comprar casas e cobrar passagens, chegava
ao fim do jogo, comigo, ou com um dos outros jogadores, a ganhar tudo. Mas
agora vamos jogar um monopólio mais interessante e colocar a banca num
dos jogadores: ele pode emprestar dinheiro cobrando uma taxa de 10% pelo
empréstimo. Mas ele basicamente está a cobrar um dez avos de dinheiro que não
existe no tabuleiro. Depois de sucessivos empréstimos o que acontece??

Ainda a pensar no meu velho jogo do Monopólio, vamos supor que no início há
100 contos no tabuleiro, 50 do jogador que controla a banca, e os restantes 50
são para os restantes 25 jogadores que partiram com 2 contos cada um, com
os quais podiam comprar 10 terrenos. Há apenas 5 jogadores que podem pedir
dinheiro emprestado ao jogador que controla a banca, e emprestar a outros
que por sua vez também emprestam aos restantes. Quando formos contabilizar
todo o dinheiro, incluindo os empréstimos, estão 1000 contos em jogo. O que
acontece? Como os terrenos são os mesmos, eles terão de desvalorizar 10
vezes para compensar o dinheiro que existe em jogo. É fácil ver que o jogador
controlador da banca que inicialmente tem 50% do valor total é o que vai
aumentar mais a sua capitalização já que cobra juros directa ou indirectamente
a todos os outros que compactuem com as regras do jogo. Os 5 restantes que
também puderam emprestar também vão conseguir capitalizar o seu dinheiro.
Os que partiram com 2 contos, neste momento têm uns fantásticos 6 contos. Mas
agora que têm o triplo do que tinham, os terrenos valem 10 vezes menos e neste
momento apenas poderão comprar 3 ao contrario dos 10 iniciais!

Entramos num ciclo vicioso, pois quantos mais empréstimos maior é a
desvalorização e quanto maior é a desvalorização menor poder de compra terão
os que partiram sem poder manipular as próprias regras do jogo.

A aritmética que aqui apresento é apenas uma sintetização de um grande
processo que se pretende o mais complexo possível, de forma a que quando
chegamos ao nosso destino não damos conta que o valor do dinheiro com o qual
partimos é menor.

Eu vou continuar a minha viagem e aproveitar para não me distrair com
pensamentos considerados infundamentados. Vou contemplar as fachadas
podres, os muros que existem para esconder algo e caminhar pelo emaranhado
de estradas que só não me confundem porque eu nasci como elas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ética e Cidadania

Vivemos hoje num mundo de incertezas, em plena crise, não só económica, não só de valores, mas também de identidade. Torna-se cada vez mais difícil diferenciarmo-nos do colega na secretária ao lado (ou pior, do número anterior ao nosso na fila do Centro de Emprego), diferenciarmos o Pais dos últimos valores dos juros da dívida pública, diferenciarmos o mundo de uma avalanche de acontecimentos que deixam muitas dúvidas sobre o nosso lugar daqui por dez dias, dez meses ou dez anos...


Este é um tempo de crise, um tempo de dúvida, um tempo de perigo. De acordo! Mas não podemos baixar os braços e considerar que este seja um tempo de desesperança, de derrotismo ou de angústia! Cada crise é sempre ocasião de uma nova oportunidade, uma ocasião para nos reerguermos, uma ocasião para tomar um novo rumo.


Como o conseguiremos? Com trabalho, com esforço e muito empenho, sem dúvida! Mas a resposta está, creio, para além disso: há que fazer toda uma refundação, todo um investimento em valores que, ao longo dos últimos anos, acabaram por perder o seu espaço.


Falo aqui de um exercício de Ética e de Cidadania.


A Ética, como “cola” de todo o nosso tecido social, não como um manual de boas práticas (muito menos, um conjunto de regras rígidas), mas como o conjunto de imperativos que condicionam a nossa acção. Muita gente (ainda) tem a ideia, falsa e pós-moderna, de que a nossa liberdade é ilimitada e que quaisquer condicionalismos a essa mesma liberdade a põem em causa. No entanto, quer a Filosofia quer a nossa experiência da realidade nos mostram que a liberdade absoluta, não condicionada, é um mito. Há, pois, que redefinir o nosso conceito colectivo de liberdade e nele admitir a possibilidade e a necessidade de ela ser condicionada. Ora, é precisamente da arte de conciliar a nossa liberdade com os seus condicionalismos que trata a ética. Escrevia S. Paulo (1 Cor 6,12) que “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Assim, pois, somos nós chamados a entender que nem tudo o que nos é permitido nos convém.


Por outro lado, a Cidadania, que podemos entender como uma extensão da própria Ética, numa vertente direccionada para a integração do ser humano na sua sociedade. Apelo aqui a uma mobilização de cada um no sentido de se auto-responsabilizar na construção de uma sociedade melhor. É um dever inalienável e o único caminho de futuro para o cumprimento de uma ambição mais do que legítima, a de deixarmos um mundo melhor para os nossos descendentes. A Cidadania traduz-se, claro, no modo como nos desacomodamos, intervimos e participamos na construção de uma sociedade ao mesmo mais tempo mais justa e mais livre. É certo que a democracia cntemporânea retirou várias armas a quem quer desinstalar-se (a seu tempo, cá voltaremos), mas, ainda assim, é uma irresponsabilidade de cada um demitir-se do processo de decisão e de crescimento de uma sociedade.


E na prática, perguntar-me-eis? Bem, na prática, tudo conta! Desde o modo como me levanto de manhã até à maneira como decido concorrer à Presidência da República. E tudo o resto pelo caminho: ser responsável nos meus estudos; ser motor de alegria no meu meio profissional, na minha família e com os meus amigos; escrever num blog; votar; assinar uma petição por uma causa justa; participar numa manifestação; promover o outro que, no meu próprio meio, é desvalorizado; dar uma parte do que tenho a quem mais precisa; criar um grupo de voluntariado; etc., etc., etc. …


Claro que podemos optar pelo caminho contrário, por nos demitirmos da nossa responsabilidade, por nos deixarmos adormecer neste torpor colectivo que parecemos atravessar. Mas pergunto: estaremos a fazer o que nos convém? Estaremos a viver à altura do nosso potencial, à altura do nosso dever?


Deparei-me hoje, por acaso, com o seguinte excerto de Emil Cioran, retirado de Do inconveniente de ter nascido: “Deveríamos repetir a nós próprios todos os dias: Sou um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. Essa banalidade justifica qualquer conclusão, qualquer comportamento ou acto: deboche, castidade, suicídio, trabalho, crime, preguiça ou rebelião. […] E daí se conclui que todos nós temos razão em fazer o que fazemos.” É precisamente este tipo de lógica que nego – defendo uma responsabilidade pessoal por parte de cada um para consigo próprio e para com todo o mundo.


O potencial de mudança reside dentro de cada um, a partir do modo como nos relacionamos com o mundo em que vivemos. Possa cada um de nós ser motor de uma mudança de que cada vez estamos mais necessitados!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Universidade de Coimbra - Que futuro?

Caros amigos,

Antes de mais, gostaria de partilhar convosco a encruzilhada em que sinto que me meti, logo que optei por escolher o “Futuro da Universidade de Coimbra” como tema desta minha primeira intervenção.

De facto, o tema é demasiado amplo para que consiga aqui abordar as inúmeras possibilidades que encerra. Apesar disso, e visto que “nos” encontramos perto de eleger aquele será o próximo Reitor da UC, é agenda do dia reflectir sobre quais deverão ser as principais orientações estratégicas da UC para os próximos quatro/cinco anos.

Estudo há cinco anos na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que foi a minha primeira escolha no acesso ao Ensino Superior. Houve uma altura do meu percurso académico em que, garanto-vos, tinha pouquíssima estima pela Universidade (ou, sejamos justos, pela faculdade) e cheguei a jurar que nunca faria aqui mestrado. Inclusivamente, cheguei a recomendar a estudantes do ensino secundário que não escolhessem Coimbra. A minha frustração não se devia a más notas, devia-se apenas ao facto de sentir que havia à minha volta instituições do Ensino Superior mais valorizadas pelo mercado de trabalho e em que o ensino – pelo menos a acreditar nas palavras dos meus amigos que as frequentavam – era verdadeiramente mais atractivo. Em cinco anos, vi a Universidade de Coimbra ser ultrapassada em várias áreas pela Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Aveiro, pela Universidade Católica, para citar apenas alguns exemplos. E, depois do Processo de Bolonha, assisti a uma fuga enorme de recém-licenciados que escolhem outras universidades – portuguesas ou europeias – para fazer mestrado. Este sentimento não passava disso mesmo: um sentimento. Mas quando sentimentos deste tipo são generalizados e se tornam conversa de café, é porque algo está mal.

Desabafo à parte, não poderia pensar hoje de forma mais diferente. Nos últimos três anos tive a oportunidade de trabalhar activamente numa organização -a AIESEC - que, através dos estudantes, professores e empresas com quem me permitiu contactar, me fez perceber que a Universidade de Coimbra tem, sim (!), a capacidade de formar estudantes únicos em todas as áreas. O estudante de Coimbra é um estudante resiliente, crítico e inovador que estuda num ambiente académica privilegiado e que tem que ser capitalizado.

Uma Universidade como a de Coimbra, não pode querer para si um futuro que não seja ser a referência nacional no Ensino Superior e uma referência no Ensino Superior Europeu. Para tal, numa análise simples, poderão contribuir dois factores críticos de sucesso: (1) Investigação e (2) Taxa de Colocação dos estudantes no mercado de trabalho da sua área.

Em relação ao factor Investigação, julgo que a sua essencialidade é óbvia. Primeiro, porque só boa investigação atrairá os melhores estudantes aos cursos pós-graduados da Universidade; segundo, porque uma investigação que gere receita é remédio (quase) santo neste contexto de cortes no Ensino Superior; e terceiro, porque a projecção mediática da boa investigação trará auto-estima aos alunos e docentes (veja-se, a este propósito, as boas práticas da FCTUC), bem como renome à Universidade.

Neste campo, e apesar da aposta dever continuar, parece-me que a Universidade está bem desperta. O problema é que insiste em continuar a dormir no que toca ao factor “taxa de colocação” visto que, salvaguardadas as excepções, poucos cursos se preocupam verdadeiramente com a colocação dos alunos que formam.

As estatísticas dizem que 99% dos estudantes são colocados na primeira fase em Coimbra. Mas dizem também que 1/3 desses alunos queria ter entrado noutra Universidade. Fica claro que a UC não é a primeira escolha entre os estudantes e, face a isto, cumpre tentar perceber o que é que motiva a generalidade dos estudante de hoje, a escolher uma Universidade.

O jovem de hoje em dia está interessado em escolher a Universidade que lhe ofereça melhores condições para combater o maior problema social dos dias de hoje: o desemprego. Quanto mais provas a Universidade der de que o seu ensino é reconhecido e acreditado pelo mercado de trabalho, mais hipóteses tem de atrair os melhores alunos.

Dar provas neste campo poderá significar inúmeras coisas. Implicará, por um lado, uma verdadeira estratégia de aproximação Universidade/Empresa (mais uma vez, atente-se às boas práticas da FCTUC) e, por outro lado, uma verdadeira preocupação e aconselhamento dos gabinetes de saídas profissionais. Poderá também implicar uma verdadeira estratégia de marketing na promoção dos cursos da UC e uma maior capitalização das redes de alumni que, em Portugal, ao contrário de países como os Estados Unidos, são tão mal trabalhadas.

Os mais cépticos e conservadores, dirão que isto é colocar a Universidade a fazer o papel do estudante. Pelo contrário, julgo que estes são passos que poderão levar a Universidade a criar uma cultura orientada ao sucesso que, sem descaracterizar o que é típico no estudante de Coimbra, irá formar trabalhadores mais dinâmicos, mais capazes, e colocar a Universidade de Coimbra onde merece: no topo.

Antes de terminar, gostaria apenas de deixar claro que alguns dos problemas identificados e soluções apontadas, não servem para todosos cursos. A UC tem óptimas práticas de sucesso nomeadamente em faculdades como a FPCEUC e a FCTUC, e o factor “taxa de colocação” não é determinante para que a UC seja a primeira escolha em determinados cursos.

Termino esta reflexão com a ideia com que comecei: toda esta abordagem poderá parecer redutora face à amplitude do tema, pelo que o debate, que é afinal o objectivo deste espaço, é muito bem-vindo.

Que Universidade de Coimbra imaginamos no futuro?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Humanismo desumano"

Caros amigos,

Como esta é a minha primeira intervenção no blogue, vou tentar partilhar de uma forma perceptível, um assunto, ou se preferirem, um pensamento/preocupação que me tem feito reflectir nestes últimos tempos.

E refiro-me à crise que a sociedade actual atravessa, não necessariamente a económica e financeira da qual já estamos saturados, mas à componente 'silenciosa' de uma crise que se arrasta há mais anos.

Neste sentido, e a meu ver, podemos e devemos ser nós, os jovens, enquanto actualidade e futuro desta sociedade global, a definir o mundo em que queremos viver. Ou será que vamos ficar eternamente à espera que ele se adapte a nós?

Afinal de contas, temos tudo! Temos saúde, vitalidade, ideias, sonhos... temos críticas! Então, porque não usar essas 'armas' para erguermos os nossos próprios princípios?! Os nossos valores! E mais do que isso, aceitar redefini-los a cada dia, a cada reflexão pessoal, a cada pensamento partilhado.

É nesta base que antevejo possível a continuidade de uma sociedade razoavelmente saudável. Não que tenhamos que viver exclusivamente numa filosofia altruísta, mas antes que se reconheça a importância da concretização individual, sem que para isso seja preciso ser indiferente a tudo o resto.

Na prática, quanto tempo temos hoje para sequer reflectir sobre o que fizemos ao longo de um dia?!... Por vezes nem cinco minutos. Uma sociedade que 'evolui' a passos largos para uma época em que muito provavelmente a maioria de nós nem poderá usufruir da sua reforma. É isto que queremos? O desenvolvimento económico a todo o custo?! "Viver para trabalhar", ao invés de "trabalhar para viver"?! Obviamente que as coisas não se pautam neste padrão "a preto e branco", mas o que me preocupa é que para lá caminhamos.

Mas mesmo assim, acredito, ou pelo menos, quero acreditar na vontade de progressão e de desenvolvimento social das gerações mais novas. Afinal, como diz o povo, "o que chega nunca é tarde", e numa altura de 'crise de valores' chegou a oportunidade singular de assumirmos o rumo que, individualmente ou colectivamente, queremos tomar.

E é certamente por isso que sinto o orgulho de poder partilhar os meus pensamentos neste blogue... com vocês. Não que espere opiniões semelhantes, mas antes que vos possa transmitir a necessidade de reflectir o nosso futuro e sobretudo que possa aprender convosco.


Saudações académicas,

Rúben Rodrigues